ARTESÃO DA LITERATURA

sábado, 28 de março de 2020

JOGANDO CONVERSA FORA - SSL



Hoje conversamos novamente. Fizemos mão de frases curtíssimas e pensamentos entrecortados, como convém quando a conversa se dá por meio das famigeradas mensagens instantâneas, justificadas pela nossa eterna falta de tempo. Nos falta tempo para quase tudo. É muito comum ouvirmos de pessoas agitadas, e sempre muito ocupadas, que não lhes sobra tempo para mais nada, nem para um simples bate-papo durante a pausa para o café, por mais que desejasse. Mas será que deseja mesmo?
Certa vez pensei até em arriscar um “Pois então desocupe-se”. Mas antes que o pensamento se tornasse palavra eu o abortei. Não faço ideia da reação que provocaria porque a impressão que tenho é que andam todos muito orgulhosos da sua falta de tempo, até para as coisas mais básicas, como uma simples conversa.

Dirão por aí que os tempos mudaram. Que são novos tempos. Jogando luzes novas sobre velhos problemas. Solucionando mistérios que ainda nem sabemos que existem. Mas para que nasça o novo, o velho deve morrer. Aos poucos tudo será substituído. Nossas certezas, nossas verdades. Nós.
Se tem algo que sempre pareceu caro demais para me permitir abrir mão, é o tempo que nos reservávamos para uma conversa. Não daquele tipo citado acima, cheia de códigos e abreviações, enviadas a dezenas de pessoas ao mesmo tempo.
Refiro-me à conversa franca, olhos nos olhos, de falar pausado, pensado. Respirado. De palavras rebuscadas, ou não, mas com todas as suas sílabas sendo pronunciadas, sem pressa para concluir seu raciocínio, na certeza de que seu interlocutor também não tinha nada mais importante a fazer naquele momento. Sentido prazer no falar tanto quanto no ouvir o que o outro teria a dizer, por mais trivial que o assunto pudesse parecer.
Exercitávamos nossa capacidade de argumentar, experimentando especial sensação ao sermos confrontados com uma opinião dissonante, questionando nossas regras e paradigmas, nos obrigando a fundamentar melhor nossa visão sobre o tema, nos permitindo até pensar que saíamos da conversa melhores do que quando chegamos.
Por tantas vezes, já invadindo a madrugada, as conversas precisaram ser interrompidas. Mas nunca com um ponto final. Por vezes reticências, outras por interrogação, deixando implícita a ideia de que o assunto voltaria à baila e às taças brevemente. A forma como terminava era quase um convite para uma nova conversa. Novo encontro. Novos, ou velhos, assuntos. Isso de fato não importava. Sabíamos que dificilmente entraríamos em uma discussão dispostos a mudar de opinião, mas adorávamos discutir. Era a parte sedutora das conversas.
Mas o tempo, sempre ele, que a tudo assiste e torna pequeno, passa. Não julga, não condena ou absolve. Deixa as tarefas menores para nós, pequenos humanos. Ele apenas passa. Incomplacente.

Inexoravelmente.
Quanto a nós humanos, pobres em sabedoria e tão repletos de soberba, que não podemos perder mais tempo com coisas consideradas pequenas, me parece que entre tantas outras coisas grandes, estamos perdendo o especial prazer da conversa.

ARTESÃO AMIGO  

SSL


Sabe um amigos desses de faz tempo? Desses com quem você não se encontra todos os dias. Porém, quando o encontro acontece, parece que o tempo distante nunca existiu. Ele preferiu se preservar, não se revelar. Acontece que seus textos são ótimos. Tanto perturbei, que hoje publiquei! Obrigado, amigo!



Nenhum comentário:

Postar um comentário